O Web Summit Rio 2026 abriu suas portas nesta segunda-feira, 8 de junho, no Riocentro, com uma agenda que deixa pouco espaço para dúvidas. A inteligência artificial não ocupa mais apenas um bloco temático isolado; é o fio condutor que atravessa as 14 trilhas do evento. Mais de 34 mil participantes, 1.500 startups e 600 investidores circulam pelos pavilhões enquanto gigantes como OpenAI, Microsoft, Google, NVIDIA, Meta e Replit comandam debates sobre agentes autônomos, infraestrutura de dados e modelos generativos. Os números da edição deste ano consolidam o encontro como o maior da América do Sul no setor.
Mas por trás do entusiasmo palpável nos corredores paira uma pergunta incômoda. O Brasil está construindo sua própria inteligência artificial, ou se contenta em ser um mercado consumidor de ferramentas desenvolvidas no exterior? O especialista Marcel Nobre colocou o dilema com clareza em entrevista concedida na última quarta-feira. Ele apontou para ativos que o país insiste em subutilizar: a segunda maior reserva mundial de terras raras, essenciais para a fabricação de chips; uma matriz energética com capacidade real para abrigar data centers de grande porte; e um ecossistema de fintechs e startups que já demonstra sofisticação, mas ainda depende demais de plataformas estrangeiras. A análise completa de Nobre reforça que o Rio de Janeiro tem condições de se tornar um hub de IA na América Latina, desde que o discurso se traduza em políticas públicas e investimentos em pesquisa.
A tensão geopolítica em torno dos modelos de IA também marcou a abertura. Paddy Cosgrave, fundador do Web Summit, argumentou que a disputa entre arquiteturas abertas e fechadas vai redesenhar o mapa global da tecnologia. Em sua fala de abertura, ele deixou explícito que países que não definirem sua posição nesse espectro correm o risco de perder soberania digital. Para o Brasil, que ainda importa a totalidade de seus semicondutores de alto desempenho, a advertência soa menos como retórica de palco e mais como diagnóstico.
A movimentação nas redes sociais antecipava o tom da programação. Postagens publicadas no fim da semana chamavam atenção para o fato de que a IA surge como tema central pela primeira vez com tamanha intensidade no evento carioca.
A presença corporativa reforça que o interesse vai além do discurso. A Claro participa como parceira oficial pelo quarto ano seguido, mantendo estande no Pavilhão 3 e promovendo palestras sobre aplicações de IA e nuvem para o mercado corporativo brasileiro. A operadora aposta numa demanda crescente por infraestrutura de dados que ainda encontra obstáculos práticos no país, desde a latência de conexão até o custo energético fora do eixo Sudeste.
O avanço da inteligência artificial em hardware e dispositivos pessoais acompanha esse ritmo. Semanas antes do Rio, o Google I/O 2026 apresentou óculos inteligentes desenvolvidos com a Samsung, equipados com modelos generativos que prometem transformar a interação cotidiana. No mercado mobile, o lançamento do Red Magic 11S Pro com o processador Snapdragon 8 Elite Gen 5 mostra como a computação de borda ganha fôlego, permitindo que tarefas de inferência ocorram localmente sem depender exclusivamente de servidores remotos. No Brasil, onde a conectividade desigual ainda exclui regiões inteiras, essa capacidade não é luxo; é necessidade.
Resta saber se o Web Summit Rio 2026 servirá como ponto de virada ou como mais um capítulo de expectativas não cumpridas. As peças estão sobre a mesa: capital estrangeiro interessado, matéria-prima abundante, energia competitiva e um público voraz por inovação. Faltam ainda as peças que o país precisa mover sozinho: financiamento de longo prazo para pesquisa básica, formação de engenheiros de semicondutores e uma estratégia nacional que trate a inteligência artificial como infraestrutura crítica, e não como moda passageira. Os próximos três dias no Riocentro vão mostrar se há vontade política e empresarial para encarar essa conta.



