Reid Hoffman está deixando o conselho de administração da Microsoft. O co-fundador do LinkedIn, que ocupa uma cadeira na empresa desde 2017, informou a gigante de Redmond no dia 2 de junho que não concorrerá à reeleição na assembleia anual de acionistas prevista para o fim do ano. A revelação veio ao público três dias depois, quando a Microsoft divulgou o afastamento em um formulário 8-K junto à SEC.
Aos 58 anos, Hoffman não deixa a sala por divergências. O documento regulatório deixa claro que não há desentendimentos sobre política ou operações com os executivos da companhia. A razão é outra: ele quer tempo integral para a Manus, startup de biotecnologia que co-fundou para aplicar inteligência artificial na descoberta de medicamentos e no tratamento do câncer. Em comunicado, Hoffman disse que a empresa alcançou um progresso tão notável que ele precisava voltar ao que chamou de modo fundador.
A saída marca o fim de um ciclo de quase dez anos em que Hoffman ajudou a costurar algumas das relações mais estratégicas da Microsoft no campo da IA. Durante seu mandato, ele atuou como ponte entre a empresa e a OpenAI, parceria que redefiniu a trajetória de ambas no mercado de inteligência artificial. A decisão de abandonar uma das mesas mais poderosas da indústria tecnológica para voltar a operar uma empresa do zero sinaliza uma mudança de perfil no próprio setor; executivos que antes se contentavam em investir de fora agora querem as mãos na massa de projetos de alto risco.
A Microsoft, por sua parte, segue acelerando sua própria expansão no ecossistema de games e IA, como demonstram iniciativas recentes da companhia em ouvir sua base de jogadores através do novo programa Xbox Player Voice. Enquanto isso, Hoffman se junta a uma leva de empreendedores experientes que estão migrando capital e atenção da tecnologia pura para a biotecnologia. O movimento reforça uma tendência que já desperta debates em outros nichos criativos; a discussão sobre o uso de IA em produções audiovisuais, por exemplo, tem gerado reações intensas no mundo dos games, como mostrou a polêmica recente envolvendo o remake de Final Fantasy VI.
O conselho da Microsoft perde uma voz que conhecia os bastidores tanto do Vale do Silício quanto da inteligência artificial corporativa. Para Hoffman, a aposta é clara: trocar a estabilidade de uma das maiores corporações do planeta pela incerteza de uma startup que promete usar algoritmos para combater doenças. Se a Manus cumprir sua missão, a saída do conselho poderá parecer, em retrospecto, o primeiro passo de uma segunda carreira tão influente quanto a que ele teve no LinkedIn.



